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Impactos do Complexo Industrial Portuário do Açu sobre a fauna nativa: algumas informações
Arthur Soffiati*
O empobrecimento da diversidade faunística no norte-noroeste do Estado do Rio de Janeiro.
O Roteiro dos Sete Capitães, documento do século XVII, fala-nos da rica
diversidade animal existente na planície fluviomarinha do norte da Capitania de São
Tomé. Couto Reis legou-nos a primeira descrição minuciosa da fauna regional. No
século XIX, Maximiliano de Wied-Neuwied, Auguste de Saint-Hilaire, Hermann
Burmeister e J. J. Tschudi, na condição de naturalistas europeus, equipados com os
melhores recursos da época, superaram os memorialistas brasileiros com vantagem. Só
no século XX, a especialização das ciências, com sua compartimentação, passou a
permitir um conhecimento particularizado do que restou da fauna regional.
Invertebrados
De todos os invertebrados, o que mais impressionou os viajantes foi a Tunga
penetrans, popularmente conhecido como bicho de pé. Quase todos os naturalistas
estrangeiros sentiram a sua presença na carne. O príncipe Maximiliano, com seu
proverbial senso de observação, não se deixa abalar mesmo atacado pelo inoportuno
animal1. Freireyess, que, juntamente com Sellow, integrou a expedição de
Maximiliano, dedica, em livro correspondente à outra viagem, uma página inteira ao
bicho de pé encontrado entre a Serra da Estrela e o Rio Paraíba do Sul, segundo o
naturalista, local em que ele pululava em maior quantidade em todo o Brasil2.
Resignadamente, Saint-Hilaire lamenta que “Desde o começo dessa viagem não
havíamos cessado, eu e meus empregados, de ser atormentados pelos bichos de pé...”3
Burmeister também não escapou do ataque do ectoparasita sifonáptero4.
Vivendo ainda num universo intelectual pré-Linneu, o capitão Manoel Martins
do Couto Reis incluiu sob a designação geral de insetos de maior grandeza os répteis,
os anfíbios e os invertebrados propriamente ditos, denominando estes últimos de
voláteis. Nesta categoria, ele insere os gafanhotos, as borboletas, as mutucas (“Umas
qualidades de mosca de diversas grandezas cujas mordidelas mortificam muito a todo
vivente”), insetos de inúmeras formas, pinturas e pequenez que “surpreendem a nossa
admiração”. Couto Reis enumerava as abelhas nativas – jataí, guarupu, mandaçaia,
* Doutorem História Social com concentração em História Ambiental pela Universidade Federal do Rio
de Janeiro.
1 WIED-NEUWIED, Maximiliano de. Viagem ao Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1989.
2 FREIREYSS, G.W. Viagem ao Interior do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1982.
3 SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem pelo Distrito dos Diamantes e Litoral do Brasil. Belo Horizonte:
Itatiaia; São Paulo, Edusp, 1974.
4 BURMEISTER, Hermann. Viagem ao Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia: São Paulo: Edusp, 1980.
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mumbuca, irata e vorá, quando seu manuscrito perde seis páginas5. Maximiliano
registra o vaga-lume, cujo nome científico, na época, era Elater noctilucus, atualmente
Pyrophorus noctilucus, cada vez mais rarefeito nas cidades. Numa densa floresta à
margem do Rio Paraíba do Sul que o nobre naturalista atravessou à noite, indo de
Campos para São Fidélis, maravilhou-o a multidão de insetos luminosos e o canto de
grandes cigarras ouvido a extraordinárias distâncias6.
Além do bicho de pé, Saint-Hilaire tem um ajuste de contas com mosquitos e
percevejos. No entanto, quem mais se dedica a descrever invertebrados é Hermann
Burmeister, que acreditava causar surpresa em índios, negros, mestiços e brancos por
caçar borboletas nas matas que ornavam o Rio Pomba. A seu ver, “...não existe lugar
melhor para capturar grande variedade de insetos do que uma picada nova.” Ele conta
que sua roupa branca serviu de ponto de atração para os insetos, que cobriram o seu
corpo, todos eles tendo o triste fim de acabarem na sua caixa de coleção. Menciona
escaravelhos (entre eles, a bela Lamia farinosa) e cigarras. É com vagar que fala de
lepidópteros como Morpho menelaus (M. nestor), Morpho adonis, já considerada rara
na época, Peridromia amphinome e a completamente nova Peridromia arethusa,
Heliconius phyllis e H. sara, borboletas que vivem unicamente na mata virgem e
escura; já a H. thales, nota o autor, gosta de lugares abertos; o naturalista ficou
surpreso de encontrar como testemunho inequívoco da região tropical americana a
Vanessa huntera, parente próxima da européia V. cardui; o gênero Heliconius, aos
olhos do zoólogo, parece ser o mais comum, bastante freqüente no Rio de Janeiro e
perto da Lagoa Santa.
Foi subindo o Rio Pomba que ele viu pela primeira vez, na sua excursão, ninhos
de térmitas, dedicando-lhes uma página inteira. “As térmitas – comenta o naturalista
– não possuem a agilidade das formigas e os seus ‘operários’, de cabeça grande mas
sem olhos, são extremamente estúpidos.” Nota a abundância de insetos indesejáveis no
Brasil, país em que, a seu ver, a falta de limpeza e de higiene são consideradas
supérfluas. Numa casa habitada por uma família de negros pobres, observou que a
mãe, com a cabeça da filha acomodada no regaço, catava-lhe certos bichinhos, prática
que ele encontra com freqüência, sendo interpretada por alguns como manifestação
de amor e fonte de prazer. Ao alemão, contudo, que a presenciou quase que
diariamente, causou repugnância. Chega mesmo a afirmar categórico que todo negro
e muitos mulatos têm piolho. Esclarece que nos brancos também não é muito raro
5 COUTO REIS, Manuel Martins do. Descrição Geográfica, Política e Cronográfica do Distrito dos
Campos dos Goiataca que por ordem do Ilmo. e Exmo. Senhor Luiz de Vasconcellos e Souza do
Conselho de S. Majestade, Vice-Rei e Capitão General do Mar e Terra do Estado do Brasil se escreveu
para Servir de explicação ao Mapa Topográfico do mesmo terreno, que debaixo da dita ordem se
levantou. Rio de Janeiro: 1785 (manuscrito original).
6 WIED-NEUWIED, Maximiliano de. Op. cit., págs. 85 e 103.
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encontrá-los, mas é necessária uma intimidade muito grande com portadores para
contraí-los.
Outro grupo de invertebrados que atormentava a vida do estrangeiro era o dos
mosquitos, se bem que Burmeister assegurasse que estes insetos picadores não eram
mais frequentes no Brasil que na Europa, incorrendo em erro quem pensasse que os
insetos causam mais incômodos e moléstias nas zonas tropicais que nas temperadas. A
receita ensinada pelo autor para não ser molestado por eles consistia em afastar-se das
margens dos rios e das florestas durante a noite. Aponta como mais comuns espécies
dos gêneros Culex, Anopheles e Simulium. Quanto às moscas, identificou uma do
gênero Stomoxys como a mais conhecida, embora não soubesse distingui-la com
exatidão da Stomoxys calcitrans européia. Anotou ainda os gêneros Chrysops e
Tabanus, mais encontradas nas matas, atacando de preferência os animais que o ser
humano. Provavelmente o Chrysops tristis Fabr. tentou picar a mão do entomólogo em
suas incursões à cata de insetos. Seus banhos eram perturbados pelo Tabanus januarii
Wied. Seu cavalo foi assustado pela grande Pangonia lingens Wied. Burmeister,
todavia, concordava com a população local de que a mosca mais danosa era a
transmissora do berne, pertencente ao gênero Tripoderma (Cuterebra), até aquela
época, ao que parece, não descrita.
Os carrapatos merecem considerável atenção dele, pois se trata de “outra praga
da qual nenhum viajante consegue livrar-se.” Embora existam carrapatos na Europa,
o naturalista alemão esclarece que, lá, eles não se encontram em tão grande
quantidade como no Brasil, onde “desaparecem na estação úmida e voltam no outono,
quando termina a época das chuvas.” Atacando seres humanos e animais, o carrapato
provoca grandes incômodos. Notou que os brasileiros não se preocupavam com o
ataque dele aos animais de pasto e de carga, deixando que lhes sugasse o sangue até
caírem fartos. No entanto, verificou que a galinha exercia a função de predadora,
devorando quantos carrapatos pudesse e aliviando a tortura dos animais parasitados.
Antes de chegar à Aldeia da Pedra (atual Itaocara), o naturalista alemão
observou abelhas nativas, como a Trigona amalthea. “No interior do Brasil – salienta
ele –, é muito comum a manutenção de abelhas domésticas e, por isso, ninguém se
incomoda em procurar o mel selvagem, a não ser por um divertimento todo
particular. Dizem, aliás, que o mel que estas abelhas fabricam logo entra em
fermentação (...) Todas as abelhas selvagens produtoras de mel são, quanto eu saiba,
de origem americana e Trigonas, cujas várias espécies os brasileiros conhecem,
dando-lhes diferentes nomes.”
Ainda entre os invertebrados, Burmeister se impressiona com uma enorme
minhoca que encontrou quando seguia para a aldeia de Santa Rita da Meia Pataca. Na
4
sua descrição, contava ela com a grossura de um dedo e mais de um pé de
comprimento. Ele deparou ainda com outras mais, porém não pôde trazer nenhuma,
pois que se deterioravam no álcool fraco de que dispunha. Talvez tenha ele sido
apresentado ao minhocaçu, verme capaz de cavar galerias em material resistente7.
Peixes
Investigações arqueológicas efetuadas no norte-noroeste fluminense revelam
que a ictiofauna consistiu numa fonte privilegiada de alimentos para os povos
indígenas. A empreendida na ilha maior do Arquipélago de Santana, em frente à foz
do Rio Macaé, acusou a existência, dentre outras espécies, do cação-martelo (Sphyrna
sp), de raias, das quais foi identificada a espécie raia-chita ou raia-pintada (Aetobatus
narinari) e encontradas peças cartilaginosas pertencentes ao gênero Myliobatis ou
Rhinoptera. Os habitantes indígenas da ilha recorriam principalmente aos abundantes
bagres, destacando-se o bagre-bandeira (Bagre bagre) e o voador (Dactylopterus
voltans). Talvez, por este motivo, o Rio Macaé foi denominado pelos primeiros
europeus de Rio dos Bagres. Foram encontrados também restos dos gêneros
Epinephelus, possivelmente pertencentes a garoupas, meros e chernes, e do
Mycteroperca, quiçá associado a badejos. No material desenterrado, havia ossos de
enchova (Pomatomus saltatrix), de xaréu (Carans sp), do gênero Selene (peixe-galo),
de cocoroca (Haemulon sp), de sargo-de-dente (Archosargus probatocephalus), de
marimbá (Diplodus argenteus), de corvina (Micropogonias furnieri), de pirangica
(Kiphosus sectatrix), de enxada (Chaetodipterus faber), de budiões (gêneros Scarus e
Sparisoma), de cangulo (Balistes vetula) e do gênero Mugil (tainha). No entanto, o
prato predileto dos primitivos habitantes da ilha eram os baiacus, dos quais foram
reconhecidos restos do baiacu-arara, (Lagocephalus laevigatus) e do baiacu-deespinho
(Diodon hystrix). Peixes extremamente venenosos por sintetizarem uma
toxina só encontrada nos tetradontídeos e na família Salamandridae, da classe dos
anfíbios, se ingeridos sem os devidos cuidados na sua preparação, podem causar a
morte em 30 minutos8.
Ao desembarcarem pela primeira vez nas terras que conseguiram como
sesmarias, os sete capitães ficaram “pasmos de ver semelhantes grandezas de peixes
em terra.” Na segunda viagem (1633), voltam a se surpreender com a abundância de
peixes de água doce que os nativos lhes ofereciam com hospitalidade. Numa
determinada lagoa, conta o Roteiro, os indígenas dispuseram-se a pescar usando redes
7 BURMEISTER, Hermann. Viagem ao Brasil, op. cit.
8 LIMA, Tania Andrade e SILVA, Regina Coeli Pinheiro da. Zoo-arqueologia: alguns resultados para a
pré-história da Ilha de Santana. Revista de Arqueologia 2 (2). Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi,
jul/dez de 1984.
5
que teciam com uma planta seca ao sol e torcidas nas pernas ou nas palmas das mãos.
Tudo indica tratar-se da taboa (Typha domingensis). Duas horas depois, vieram
carregados de peixes de várias espécies, predominando a piabanha, que acabou se
transformando no nome de batismo da lagoa9.
O primeiro documento a nos fornecer uma relação relativamente
pormenorizada sobre a ictiofauna da região é a Descrição de Couto Reis. “Encontramse
– anota ele – peixes de várias qualidades tanto do mar como de água doce, e alguns
de um sabor admirável.” Entre os peixes do mar, o capitão cartógrafo aponta o robalo
(o de melhor sabor, sobretudo o do Furado e da lagoa Feia), o bagre, a tainha, a
cruvina (corvina) e a carapeva (carapeba). Entre os de água doce, inclui a piabanha, o
piau, excelentes, o coromatan (crumatã, curumatã ou corimbatá), taraíra (traíra),
jundiá, duiá, taiabucu, alambariz (lambari), todos com muita espinha e semelhantes
ao bagre. Nas quedas d’água, vivem surubins de duas espécies. Fala ainda da
piracanjuba e do dourado. Estranha-se a existência deste último no século XVIII, nos
ecossistemas de água doce da ecorregião, pois que, nativo de outras bacias, só foi
introduzido na Bacia do Paraíba do Sul nos séculos XIX e XX, em duas tentativas
frustradas e numa bem sucedida. Das duas uma: ou o dourado foi introduzido em
época anterior ao que normalmente se julga ou nomeava-se alguma espécie nativa
com este nome10.
Os memorialistas brasileiros do século XIX referem-se aos peixes de modo
bastante informal. Nos escritos de Aires de Casal, José Carneiro da Silva, Pizarro e
Araujo, Muniz de Souza e Teixeira de Mello, fala-se em robalo, tainha, piabanha,
piau, crumatã, surubins, corvina, acará, traíra, bagres, jundiá, cachimbau, piaba,
manjuba, ticopá, duiá, morobá, urutum, sairu e muçum. Os ecossistemas mais
pródigos em peixes, além do mar, eram as Lagoas Feia (sempre em primeiro lugar) e
de Cima, o Rio Paraíba do Sul e vários brejos, na verdade, o incontável número de
lagoas11. No seu primeiro trabalho mais longo, Lamego exalta o robalo da Lagoa Feia,
9 DESCRIÇÃO que faz o Capitão Miguel Aires Maldonado e o Capitão José de Castilho Pinto e seus
companheiros dos trabalhos e fadigas das suas vidas, que tiveram nas conquistas da capitania do Rio de
Janeiro e São Vicente, com a gentilidade e com os piratas nesta costa. Revista do Instituto Histórico e
Geográfico do Brasil tomo XVII. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1894.
10 COUTO REIS, Manoel Martins do. Op. cit., págs. 46 e 47. NOMURA, Hitoshi, em Dicionário dos
Peixes do Brasil (Brasília: Editerra, 1984), menciona quatro espécies chamadas popularmente de
dourado: Brachyplatystoma flavicans, do Rio Madeira; Coryphaena hippurus, espécie marinha comum
no nordeste brasileiro; Salminus brevidens, nativo da Bacia do São Francisco; e Salminus maxillosus, dos
Rios Parnaíba, Paraná, Pardo, Mogi Guaçu, Grande, Tietê, Paranapanema, Sapucaí, dos Peixes e Doce.
Nenhuma delas, portanto, é nativa dos ecossistemas aquáticos continentais da ecorregião norte-noroeste
fluminense.
11 CASAL, Manuel Aires de. Corografia Brasílica. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1976.
SILVA, José Carneiro da. Memória Topográfica e Histórica sobre os Campos dos Goitacases. 3ª ed.
Campos dos Goytacazes: Fundação Cultural Jornalista Osvaldo Lima, 2010; PIZARRO E ARAUJO, José de
Souza Azevedo. Memórias Históricas do Rio de Janeiro, 3º vol. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1945;
SOUZA, Antonio Muniz de. Viagens e observações de um brasileiro que desejando ser útil à sua pátria
6
a traíra da Lagoa do Campelo, a corvina da Lagoa de Cima e o piau do Rio Paraíba do
Sul12.
Anfíbios e répteis
Poucas referências há sobre estas duas classes de vertebrados. Sob a rubrica
geral de insetos, Couto Reis inclui sapos variados, conferindo relevância às intanhas,
segundo ele, de grandes dimensões e de inexplicável veneno, capazes de engolir
pequenos frangos, pelo que ouviu dizer. Ao atravessar densa floresta, quando fez o
percurso de Campos a São Fidélis, Maximiliano impressionou-se com “a estranha
toada de um exército de rãs [que] ressoava nas trevas noturnas da brenha solitária.”13
Os répteis encontram-se mais presentes, tanto na alimentação dos povos
nativos e exóticos quanto nos registros humanos. Sobre a ordem reptiliana dos
Squamata, ossos recuperados na ilha maior do arquipélago de Santana por pesquisa
arqueológica revelam que seus habitantes pré-cabralinos usaram o lagarto teiú
(Tupinambis teguixin) como alimento, ao que parece bastante encontrado na ilha, a
julgar pelo número de fêmures desenterrados (59 ao todo). Até hoje, o maior dos
lagartos brasileiros é considerado um pitéu entre os habitantes rurais, principalmente
pela cauda carnuda. Dentre as muitíssimas espécies de lagartos apontados por Couto
Reis, deveria ele estar incluso. Encaminhando-se para o Espírito Santo, Maximiliano
encontrou caçadores escuros e totalmente nus, que o príncipe confundiu com
indígenas, carregando dois exemplares mortos deste réptil.
É ainda o naturalista alemão que encontra, no norte fluminense, a lagartixa de
coleira preta (Tropidurus torquatus), no comentário de Olivério Pinto, “...mais um
exemplo das inúmeras descobertas zoológicas de Wied, que dele nos dá uma bela
estampa em suas Abbildungen.” Subindo o Rio Muriaé, Antonio Muniz de Souza
registrou, entre a abundante “caça”, muitos lagartos. Burmeister topou, na sua
excursão científica ao noroeste fluminense, com um saurio popularmente conhecido
por taraguira, calango ou lagartinho, ao que tudo indica, a mesma espécie identificada
por Wied (Tropidaurus torquatus) e com um lagarto ápode (Pygopus striatus). Em sua
obra mais conhecida, Teixeira de Mello faz também menção ao lagarto14.
se dedicou a estudar os usos e costumes de seus patrícios, e os três reinos da natureza em vários lugares
e sertões do Brasil. Rio de Janeiro: Tip. Americana de I.P. da Costa, 1834; e MELLO, José Alexandre
Teixeira de. Campos dos Goitacases em 1881. Rio de Janeiro: Laemmert & C., 1886.
12 LAMEGO FILHO, Alberto. A Planície do Solar e da Senzala. Rio de Janeiro: Católica, 1934.
13 COUTO REIS, Manoel Martins do. Op. cit., pág. 48; e WIED-NEUWIED, Maximiliano. Op. cit., pág.
103.
14 LIMA, Tania Andrade e SILVA, Regina Coeli Pinheiro da. Op. cit., págs. 86 e 87; COUTO REIS, Manoel
Martins do. Op. cit., pág. 47; WIED-NEUWIED, Maximiliano de. Op. cit., págs. 88 e 125; SOUZA,
Antonio Muniz de. Op. cit. pág. 136; BURMEISTER, Hermann. Op. cit., pág. 145; e MELLO, José
Alexandre Teixeira de. Op. cit., pág. 54.
7
Da ordem Squamata, os ofídios chamaram a atenção de todos por sua fama de
peçonhentos e mesmo pelo significado simbólico que tem a serpente no imaginário.
Couto Reis enumera, ainda sob a designação de insetos, a jibóia, a morubá, a cobra
d’água, a cipó, a cobra de bosta e a caninana, mansas e menos venenosas; a surucucu,
a jararaca e a coral, muito ferozes e peçonhentas. Uma cobra cipó verde (Chironius
carinatus), de seis a oito pés de comprimento, cruzou velozmente o caminho de
Maximiliano. Encontrou ainda um único exemplar de muçurana em toda sua viagem,
também conhecida por cobra preta, boiru ou limpa mato, denominada por ele de
Colomber plumbeus, hoje Pseudoboa cloelia. Ao ordenar que um negro a matasse para
a sua coleção, notou que ele ficara apavorado com a missão. Na sua excursão no Rio
Muriaé, Muniz de Souza informou sobre a existência de muitas cobras. Além da jibóia,
da surucucu e da coral, José Carneiro da Silva acrescenta a jararacuçu, a uruçanga e a
dorminhoca15.
No que concerne à ordem dos quelônios, tão bem representada na região, há
uma lacuna por demais acentuada na literatura dos viajantes e memorialistas. No
século XIX, há apenas uma referência genérica ao cágado em Teixeira de Mello. Só
bem recentemente, os cientistas voltaram seus olhos para ela. Foram identificadas
placas ósseas provavelmente da tartaruga marinha Chelonia mydas, popularmente
conhecida por tartaruga verde, no sítio arqueológico de Santana. Esta espécie,
juntamente com a tartaruga cabeçuda (Caretta caretta) e a tartaruga de couro
(Dermochelys coriacea), tem, no litoral norte-fluminense, um dos seus pontos de
postura16.
Entrementes, o mais famoso réptil da região é o jacaré de papo amarelo ou
ururau ou arurau, único representante da ordem Crocodilia no norte-noroeste
fluminense. O Rio Ururaí foi batizado por causa dele. Algumas lagoas, cursos d’água e
localidades indicam sua existência pretérita ou atual e a lenda do Ururau da Lapa é
conhecidíssima em Campos, tendo merecido de Osório Peixoto um livro em versos ao
gosto popular17. Dele fala Couto Reis, exclamando que “são em tanto número, como
não poderá haver mais em outra parte do mundo.” Ele próprio viu um exemplar
morto no porto do Colégio, à margem da Lagoa Feia, com 11 palmos de comprimento,
e soube de um homem que fora atacado por um jacaré não muito grande poucos dias
15 COUTO REIS, Manoel Martins do. Op. cit. págs. 47 e 48; WIED-NEUWIED, Maximiliano de. Op. cit.,
págs., 77, 79 e 80; SOUZA, Antonio Muniz de. Op. cit., pág. 136; SILVA José Carneiro da. Op. cit., pág.
19.
16 MELLO, José Alexandre Teixeira de. Op. cit., pág. 54; LIMA, Tania Andrade e SILVA, Regina Coeli
Pinheiro da. Op. cit., pág. 87; e PROJETO TAMAR/IBAMA. Relatório das Atividades do Projeto Tartaruga
Marinha no Litoral Norte Fluminense - Campanha 93/94 - Base Bacia de Campos - Núcleo Atafona.
Sem indicação de local: Ibama, s/d.
17 SILVA, Osório Peixoto. O Ururau da Lapa e Outras Estórias. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
antes de sua chegada à Vila de Campos. A melhor descrição do animal foi feita por
Maximiliano, quando navegava o Rio Paraíba no trecho Campos-São João da Barra18.
Na ansiedade de capturar um espécime para a sua coleção, o príncipe e seus
caçadores feriram e mataram vários, porém só conseguiram capturar um, com cerca
de seis pés de comprimento: “cor cinzento-esverdeada, com listas transversais escuras,
especialmente na cauda; ventre de um amarelo brilhante homogêneo.” Informa ainda
o naturalista que esta espécie de jacaré era muito comum no Rio Paraíba do Sul, que os
negros comiam-no algumas vezes e que contavam histórias fabulosas a respeito dele,
com pescadores exibindo cicatrizes nos pés provocadas por suas dentadas e
sustentando sua capacidade de devorar cães que se atreviam a entrar no seu habitat.
Wied duvidou de todas elas. Após taxidermar o jacaré abatido, rumou o naturalista
para o Espírito Santo e, atravessando o manguezal do Delta do Paraíba do Sul, ainda
deparou com vários representantes deste réptil. Viu-o pela última vez, na região,
nadando nas águas do Rio Itabapoana.
Entrando na região pela extremidade oeste, Burmeister encontrou o jacaré de
papo amarelo na zona cristalina, em local bem afastado da planície fluviomarinha. Em
suas observações do animal, ele pôde perceber que “Os jacarés gostam do sol e, nos
dias claros, vêm descansar sobre pedras ou velhos troncos à superfície da água;
somente se aventuram à terra firme nos lugares onde se sentem perfeitamente seguros
e livres de perseguições. Logo pela manhã e ao anoitecer, nadam pelo rio à cata de
presa, e é nessa ocasião que saem para terra firme, uma vez que algo os atraia. O
exemplar que eu estudei era excepcionalmente gordo e forte, e do comprimento de
um homem. No seu estômago, encontrei os restos de um pato e de um leitão ainda
bastante novo. A gordura e a carne espalham forte cheiro de almíscar, que pude sentir
em meus dedos, por três dias ainda.”19
Aves
Nas pesquisas arqueológicas efetuadas na ilha de Santana, em Macaé,
constatou-se que as aves representavam um item considerável na alimentação da
comunidade nativa que ali viveu por volta do ano 720±330. Foram encontrados ossos
de exemplares da família dos procelarídeos, aves oceânicas que, por um fenômeno
ainda não compreendido pelos especialistas, com freqüência, morrem de exaustão nas
praias. Verificou-se também a presença do atobá ou mergulhão (Sula leucogaster), até
hoje nidificando na ilha; da tesoura ou alcatraz (Fregata magnificens), da saracura ou
18 WIED-NEUWIED, Maximiliano de. Op. cit.
19 SILVA, Osório Peixoto. O Ururau da Lapa e Outras Estórias. Rio de Janeiro: Imago, 1976; COUTO
REIS, Manoel Martins do. Op. cit., pág. 36; WIED-NEUWIED, Maximiliano de. Op. cit., págs. 120 a
128; e BURMEISTER, Hermann. Op. cit., pág. 160.
9
três-potes (Aramides cajanea), talvez do trinta-réis (família Laridae), da juriti
(Leptotila rufaxila ou Leptotila verrauxi) e possivelmente do pichorolé (ordem
Passeriformes)20.
O Roteiro dos Sete Capitães, por mais de uma vez, fala da diversidade e da
riqueza de aves encontradas na planície goitacá. Couto Reis, num discurso
deslumbrado, diz que “As aves por suas diversas qualidades e beleza, fazem um objeto
maravilhoso, capaz de entreter por largos tempos a contemplação dos mais curiosos e
inteligentes naturalistas. Umas são próprias do país; e outras que, de tempos em
tempos, descem de partes mais remotas a se apresentarem nele.” O cartógrafo está se
referindo, sem dúvida, às aves nativas, várias das quais endêmicas, e as migratórias.
Escusando-se por não dispor de elementos para uma descrição pormenorizada, o
capitão divide-as em: 1- aves de maior grandeza e vôo, agrupando sob este título o
mutum, já considerado raro à época; a inhuma, com um ferrão na cabeça capaz de
identificar frutos e águas venenosas e de provocar feridas graves, segundo a tradição,
além de dois nas pontas das asas; o urubutinga ou corvo branco, vulgarmente
chamado de urubu-rei, vivendo mais nos sertões afastados; o jacu, dividido em
jacutinga, jacuguaçu e jacupema ou jacucaca; os gaviões de diversas cores e
tamanhos, alguns capazes de dilacerar macacos ou de capturar patos em pleno vôo
para seu repasto; 2- aves de mediana grandeza: entre elas, o pavó, que entoa roncos
surdos em vez de canto; os tucanos de duas espécies, ambos com grande bico e
plumagem que lhes conferem admirável beleza, emitindo voz rouca e triste; a
araponga, cujo canto se assemelha às marteladas do ferrador e pode ser ouvido a
distâncias avultadas; os pica-paus, com seus belos topetes, dividindo-se em três
espécies; as oito espécies de pombas, algumas delicadíssimas; os araçaris, divididos em
duas espécies; o bacurau, o urutau e a coruja, de duas qualidades, são aves noturnas,
com belas penas mas algumas com gritos altos e tão tristonhos que assombram, por
isso mesmo supondo-se produzidos pelo eco; 3- aves da mesma classe, porém do bico
redondo, e com propriedade de falar o que se lhes ensina, e ouvem: a arara, um
papagaio grande e de plumagem vistosa; o anacam, uma arara de menores
proporções; o juruaçu, a camutanga, o jurueu e a curica, todos papagaios, mas de
espécies diversas e com vozes distintas; as maitacas, divididas em duas espécies, com
diferenças no falar; o maracanã e a nandaia, também de duas qualidades; o sabiá-cica,
de canto estimável posto que triste; os periquitos, com penas de vivo verde, entre claro
e escuro; a camiranga, maior que o periquito; a tiriba, menor que o periquito. Observa
o autor que todas estas aves andam em bando e causam muitos prejuízos à lavoura,
20 LIMA, Tania Andrade e SILVA Regina Coeli Pinheiro da. Op. cit., págs. 28 a 31.
10
principalmente à de milho, ao passo que a carne dos papagaios é saborosíssima,
principalmente guisada com arroz; 4- passarinhos de canto agradável: os sabiás, de
três espécies não pela diferença de tamanho, mas pelo colorido das penas e pelo canto;
os encontros, de penas azul- escuro e com mancha amarela muito viva na junção das
asas com o corpo; o sanhaçu, de duas espécies, não é apropriado para a gaiola; os
gaturamos, de duas espécies, cantando uma galantemente e outra um tanto rouca; os
bicudos, os canários, as coleiras e os purumarãs de suavíssimo canto; acrescenta ainda
o relator a esta lista o carajuá, cujo canto um escritor teria comparado ao de um anjo,
observando, porém, que “... neste país, é bem para admirar, que nunca se ouvissem
dar uma só voz, havendo imensos, quando descem dos sertões.” 5- aves rasteiras, isto
é, que pisam sobre a terra, não se servindo das asas senão para ajudar a carreira,
quando são obrigadas, ou para treparem no poleiro, ou passarem algum estreito rio ou
lago: o macuco, maior que uma perdiz e com carne mais delicada que a desta; o juó,
de duas espécies e com a carne e os ovos de qualidade igual à do macuco; o nambu, o
xororó e a capoeira, com carne de sabor semelhante; as saracuras, cujo canto anuncia
mudança de tempo para melhor ou para pior; 6- aves dos campos, brejos, lagos ou
rios: a codorniz, muito perseguida pelas aves de rapina por viverem em campos
desprotegidos, ocorrem mais nos campos de Jagoroaba, onde as ervas são mais altas;
taiuiú, raríssimo no Distrito, aparece pouco e por acaso, sendo, depois da ema, a maior
ave do Brasil; o tabuiaiá, menor que a anterior e de excelente carne; o manguari,
bastante parecido no tamanho com o precedente; o jaburu, de porte semelhante ao da
cegonha, porém mais triste; as garças, divididas em três espécies, não têm carne
própria para o consumo; a colhereira, de curioso bico em formato de colher; o carão,
de duas espécies, tem o bico algo curvo, com uma delas de carne saborosa; o maçarico,
dividido em oito espécies, com carne comestível; os frangos d’água, com duas espécies
distintas, uma delas linda, dão bom prato; há ainda o ati, inumeráveis piaçocas e o
quero-quero; 7- aves aquáticas de pés natatórios: os patos, que só se diferenciam dos
domésticos quando velhos; as marrecas compreendem a patinha, o irerê, o xenquem,
o queixo-branco, o pé-vermelho (segundo o autor a mais galante de todas) e outras
que não enumera; os gansos chamados do mar, singulares pelo brilho das penas,
contam com alguns raríssimos que só por acaso aparecem. Numa observação à parte,
Couto Reis tece loas aos urubus, de duas espécies, consoante seu registro, pelo serviço
que prestam à higiene. Em suas palavras, “A incompreensível e inescrutável sabedoria
da Providência até na multiplicidade destas aves beneficiou este clima extinguindo por
aquela via as podridões que se geram de tantos animais e insetos mortos pelas
11
violências das cheias, das vazantes e outras causas; que o fariam sem tão pronto
socorro, muito mais pestífero.”21
Maximiliano de Wied-Neuwied, além de sua famosa Viagem ao Brasil, legounos
ainda Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens (Weimar, 1823-1831), série
de estampas coloridas retratando animais que coletou em sua excursão científica, e os
monumentais Beiträge zur Naturgeschichte von Brasilien, em quatro volumes,
tratando tecnicamente de anfíbios, répteis, aves e mamíferos.
Comentado pelo também ornitólogo Olivério Pinto, Maximiliano registra, em
sua Viagem ao Brasil, uma infinidade de aves. Elas aparecem aqui em ordem de
entrada, acompanhadas com as observações que se tornarem necessárias. No trecho de
Cabo Frio à Vila de São Salvador dos Campos dos Goitacás, o príncipe naturalista
encontrou o chochi (saci ou sem-fim, Tapera naevia), bacuraus (conhecidos no sul do
Brasil por curiango), o milhano preto e branco (o belo gavião tesoura, Elanoides
forficatus), uma enorme quantidade de urubus dividindo os despojos de um animal
morto com um cão, sem se preocuparem com a presença da caravana de Wied,
grandes bandos de maracanãs e periquitos, tucanos e o gavião cor de chumbo (o
popular gavião pomba ou sovi, Ictinia plumbea), hoje raro na região. Nas margens da
Lagoa Paulista, foram avistados grupos do papa ostras brasileiro (chamado
vulgarmente de baiagu ou piru-piru, Haematopus palliatus), o caburé (Glaucidium
brasilianum) e o sabiá da praia (Mimus gilvus). Mais adiante, topou o ornitólogo com
maçaricos, quero-quero, garças, gaivotas, andorinhas do mar e marrecas. Na lagoa de
Ubatuba, foi possível caçar o ibis de faces peladas e cor de carne (Phimosus infuscatus
nudrifrons), uma nova espécie de milharfe (segundo Olivério Pinto, já identificada
anteriormente como o conhecido caracara ou gavião do mangue, Circus brasiliensis) e
um gavião classificado atualmente pelo nome de Busarellus nigricollis, além de se
localizar um ninho, com os ovos, de bem-te-vi (Pitangus sulphuratus), em forma de
forno, fechado em cima. Ao norte da Lagoa de Ubatuba, onde a planície abrigava uma
miríade de extensas lagoas, Maximiliano viu, pela primeira vez, o colhereiro (Ajaia
ajaja), que, sem êxito, os caçadores da expedição tentaram abater para a coleção do
naturalista; novamente garças, patos, maçaricos e biguás. Também o tapicuru, nome
comum aos ibídidas de cor preta brasileiros. A anhinga (também biguá-tinga, carará,
miuá etc., Anhinga anhinga) foi perseguida em vão por Wied, que só capturou
exemplares dela mais tarde. Além da Barra do Furado, de novo são vistos maçaricos,
batuíras e baiagus alimentando-se de crustáceos, vermes e moluscos, como também
uma espantosa multidão de marrecos e aves palustres, dentre as quais Nettion
21 Descrição que faz o Capitão Miguel Aires Maldonado...”, Op. cit.; e COUTO REIS, Manoel Martins do.
Op. cit., págs. 38 a 46.
12
brasiliense, a espécie mais comum de pato em todas as regiões visitadas por
Maximiliano, observação confirmada por Olivério Pinto. Ainda nas cercanias da Lagoa
Feia, foram capturados o ibis de cara vermelha, ou carão (Phimosus infuscatus
nudifrons), e o caracará (Polyborus plancus). Foi no Rio Bragança, um dos defluentes
da Lagoa Feia, que Wied obteve o único exemplar do socozinho vermelho (Ixobrychus
exilis erythromelas) em toda a sua viagem. Avançando pelas imensas planícies
aluviais, em direção à Vila de Campos, o grupo encontrou uma espécie de inambu
correspondente à codorna (Nothura maculosa).
Em sua viagem a São Fidélis, o naturalista logo encontrou o anum preto, na
época com o nome científico de Crotophaga ani, Linn, e com o cuco pintado (Cuculus
guira, Linn.). Fala do anum branco, esclarecendo que descera havia pouco tempo dos
planaltos de Minas para as baixadas costeiras e que, por isto, era ainda pouco
conhecido na região. Nos ramos de uma figueira, descobriu o curioso ninho do bicochato,
na verdade, o tirri ou relógio ou teque-teque (Todirostrum poliocephalum),
como ensina Olivério Pinto. Numa densa floresta de légua e meia, estendendo-se da
margem do Rio Paraíba do Sul até São Fidélis, ouviu o grito dos curiangos. Entre os
puris das imediações de São Fidélis, notou que suas flechas eram enfeitadas na
extremidade inferior com penas de mutum ou de jacutinga. Em nota de rodapé,
Olivério Pinto explica que o naturalista confundiu o Crax alector, espécie peculiar à
região amazônico-guianense, com o mutum de bico vermelho (Crax blumenbachii
Spix), típica da mata costeira do Brasil médio-oriental. De retorno a Campos pela
margem esquerda do Paraíba do Sul, passou por uma ilhota com algumas árvores
repletas de ninhos de guache (Cassicus haemorrhous), em forma de saco.
A etapa final da viagem de Wied no norte-noroeste fluminense estende-se de
Campos à fazenda Muribeca, na margem do Rio Itabapoana, que separa as províncias
do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Rumando para São João da Barra pelo rio Paraíba do
Sul, abate muitos exemplares de martim-pescador azulado (Magaceryle torquata), o
maior dos martins-pescadores brasileiros, no esclarecimento de Olivério Pinto, o único
em que o colorido predominante da plumagem é azul ardosiado, e não verde. O
ornitólogo chamou-o inicialmente de Alcedo alcion, nome dado por Linneu a ave
muito semelhante. Depois, no volume 5 dos Beiträge, corrigiu o erro, descrevendo-o
sob o nome de Alcedo cyanea Vieillot, primeiro que esta ave recebeu na pia batismal
da zoologia. Encontra-o ainda no manguezal do delta do Paraíba do Sul, juntamente
com o arisco biguá (Phalacrocorax olivaceus), forte palmípede ictiófago freqüente nos
estuários e margens lodosas das baías do litoral. Na espessa mata que se estendia entre
a margem esquerda do Rio Paraíba do Sul e a margem direita do Rio Itabapoana,
ouviu-se o pio forte e grave do juó, jaó ou zabelê, espécie descrita por Wied e batizada
13
de Tinamus noctivagus, por julgar o naturalista que ela pertencia ao gênero dos
macucos. Seu nome técnico atual é Crypturellus noctivagus. “Nas grandes matas e
alagadiços das margens do Itabapoana – escreve Maximiliano –, faz ninho o pato
almiscarado (Anas moschata, Linn.), que ainda não tínhamos encontrado.” Olivério
Pinto intervém para fornecer o nome científico atual da ave – Cairina moschata – e
dar algumas de suas denominações vulgares: pato do mato, pato bravo ou
simplesmente pato. Ainda no Itabapoana, foram caçados garças, ibis, patos, o pato de
espáduas verdes, a garça real, espécie até então mal descrita, as garças brancas grande
e pequena, e muito mais. Olivério Pinto diz que, além de espécies já conhecidas, as
outras aves especificadas são a marreca viúva (Dendrocigna viduata), a garça branca
(Casmerodius albus egretta), a garça real (Pilherodius pileatus) e a garça branca
pequena (Leucophyx thula thula). Antes de atravessar o Itabapoana a caminho do
Espírito Santo, o príncipe registra uma bela espécie de pica-pau, o pica-pau branco ou
birro (Leuconerps candidus)22.
Naturalista mais voltado para a botânica, Saint-Hilaire pouco acrescenta ao
quadro pintado por Maximiliano. Registra apenas o queriqueri (quero-quero) e as
garças. Por sua vez, o zoólogo alemão Hermann Burmeister, percorrendo uma parte
do norte-noroeste fluminense que seus dois predecessores não conheceram, também
pouca atenção concede às aves. Como a muitos brasileiros e estrangeiros, despertaram
seu interesse os urubus, aves cujo meritório trabalho de limpeza pública é sempre
notado, com toda a repugnância que se lhes possa devotar23.
Além de observações acuradas acerca da etologia do urubu, Burmeister acusa a
presença de pardais atacando lavouras. Na falta de maiores explicações, fica-se a
perguntar se se trata do pardal europeu, àquela altura já introduzido e disseminado
em terras brasileiras, ou se o naturalista o confundiu com o tico-tico, que lhe é
semelhante, confusão difícil de admitir num zoólogo. Pouco mais adiante, ele dá
notícia do anum branco (Cuculus guira), chamado por ele de cuco amarelado, animal
que, daquele ponto em diante, tornou-se muito comum. De certa forma, tal
informação corrobora o que Wied ouvira a respeito desta espécie quando viajava para
São Fidélis. Doravante, aparecem no seu relato as saracuras (Gallinula cajennensis),
das quais o filho do naturalista se empenhou inutilmente em matar um exemplar com
o estímulo dos circunstantes, “...pois caçar saracuras é uma arte que somente poucos
conhecem...”; o Pteroglossus bailloni; os guachos (Cassicus haemorhous), com seus
curiosos ninhos; um Falco guainensis, que o cientista não conseguiu abater; uma
grande arara (Psittacus macao); um falcão branco de asas pretas (Falco scopterus); um
22 WIED-NEUWIED, Maximiliano de. Op. cit., págs. 75 a 129.
23 BURMEISTER, Hermann. Op. cit.
14
caracará (Falco degener ou Polyborus chimachim), morto pelo filho dele; a famosa
Columba rufaxilla, atualmente Leptoptila rufaxilia, a popular juriti, que levou
Burmeister a derivar o nome do Rio das Pombas da grande quantidade dessas aves no
seu vale; e a garça branca pequena, nomeada por ele de Ardea candidissima, hoje
Leucophyx thula thula24.
Os memorialistas da região não se saíram muito bem como naturalistas, nem
mesmo o arguto Antonio Muniz de Souza. José Carneiro da Silva enumera apenas o
tuiuiú, a colhereira, o carajuá, o beija-flor, o mutum, o urubutinga. Por ser o tuiuiú a
maior ave encontrada na região, meteu-se o visconde a descrevê-lo, encontrando para
um exemplar onze palmos da ponta de uma asa à outra e sete palmos e meio da ponta
dos pés até o bico, que, por si só, contava com um palmo e quatro dedos. Todo branco,
tem o pescoço e a cabeça pretas. Como de hábito, segue-lhe os passos o Monsenhor
Pizarro e Araujo. Visitando a Lagoa de Cima, Muniz de Souza fica fascinado com as “...
lindas aves, que com seus variados cantos desafiam as mais doces emoções! (...)
Pássaros matizados de lindas cores fecham este encantador quadro: tucanos, araçaris,
diversas espécies de sabiás, melros, saís de inumeráveis variedades, gaturamos, juós,
jacutingas são constantes habitadores de suas florestas: outros há de arribação, como
papagaios, periquitos, encontros etc.” Neste mesmo diapasão, Teixeira de Mello presta
um depoimento comovido sobre as aves: “Uma vez, descia eu de madrugada, em
canoa, pelo Muriaé, com minha família. Ao passarmos pela fazenda da viscondessa de
Muriaé, eu, que adormecera à toada monótona dos remos na canoa, desperto de
repente e assisto a um espetáculo original e único de que fora testemunha em minha
vida: na baixada cortada pelo rio, em uma e outra margem, creio que todas as aves
canoras da região se haviam congregado para comemorarem talvez alguma data
gloriosa ou triste entre elas, por um concerto vocal matutino, a que a tecnologia
estrangeira denomina matinée musicale, era admirável a harmonia daquele conjunto
de mil vozes, regidas por batuta invisível, tão maravilhosamente se combinavam os
cantos em uma opera fantástica que nenhum Mayerbeer, nenhum Carlos Gomes,
nenhum Wagner comporá jamais. Como que todas as aves canoras da região estavam
ali representadas no que tinham de mais melodioso. Foi um espetáculo sublime que na
ocasião nos pareceu sobrenatural, desvanecendo-se rápido como um sonho, mas
deixou-me a mais grata e duradoura impressão.”
Despertando do arrebatamento, o autor arrola, como aves silvestres
encontradas no município de Campos, o mutum, a jacutinga, a capoeira, a araponga,
o sanhaçu, o grumará (comedor de milho nas roças), o jacu, a jacupema, o juó, o
24 SAINT-HILAIRE, Auguste de. Op. cit., págs. 183 a 212; e BURMEISTER, Hermann. Op. cit., págs. 142
a 197.
15
macuco, o nhambu, a rola, a juriti, a arara, o papagaio, o periquito e suas variedades
(maracanã, querequeté, maitaca, o periquito sem cauda), o anum preto e o anum
branco, o pica-pau, o tico-tico, o guache, o araçaí, o tucano, as andorinhas, o bem-tevi,
o siriri, a cambaxirra, a colhereira, o irerê (chenquem, queixo-branco, pé
vermelho, do sertão), a pacaparra, a garça, o frango d’água, o socó, a piaçoca, a
sericória, o quero-quero, o carão, a lavandeira, o maçarico, a viuvinha, o pato
selvagem, o franganito, o gavião, o urubu, o urubu-rei, a coruja, o caburé, o noitibó
(ou bacurau), os sabiás (sabiá-cica, do bardo, laranjeira, da praia), o canário, o melro,
o encontro, o papa-capim, a coleira, o avinhado, o gaturamo, o bico de lacre, o virabosta,
o sanhaçu do coqueiro, o bicudo, o caboclinho, os tigês ou tiês (um azul e outro
berne), os beija-flores, os saís, as codornas e os perdizes. Nada mais que repetição de
autores que o antecederam25.
Mamíferos
Tudo, na região norte-noroeste fluminense, favorecia a pluralidade de espécies
mamíferas nativas e sua grande prodigalidade. Havia lagoas, pastos e florestas que se
constituíam em extraordinárias fontes de alimento e de proteção. Eis porque causou
surpresa aos primeiros colonos de origem européia e aos naturalistas a fabulosa
diversidade de animais da mastofauna.
No sítio arqueológico de Santana, os mamíferos estão presentes na alimentação
da comunidade indígena que ali habitou através do preá, apereá na língua geral
(Cavia sp), da paca (Agouti paca), do macaco guariba (Alouatta sp), da lontra (Lutra
sp), de marsupiais cujos gênero e espécie não foram determinados, do veado (Família
Cervidae, gênero indeterminado), do porco do mato (Tayassu albirostriz) e do
golfinho (Globicepha malaena). As responsáveis pelas investigações arqueológicas
advertem que estes animais, em sua maioria, não fazem parte da fauna autóctone da
ilha, com a possível exceção do preá, que pode ter chegado a Santana no Pleistoceno,
quando a ilha ligava-se ao continente pelo rebaixamento das águas oceânicas, e da
paca, excelente nadadora. Os outros mamíferos terrestres certamente foram caçados
no continente, o que porventura indique a necessidade dos ilhéus em suplementar sua
dieta piscívora com outro tipo de suprimento26.
Por várias vezes, o Roteiro dos Sete Capitães alude à fauna mamífera que
abundava na planície aluvial: “... o Maioral nos ofereceu caças frescas para comermos
25 SILVA, José Carneiro da. Op. cit.; PIZARRO E ARAUJO, José de Souza Azevedo. Op. cit., pág. 100;
SOUZA, Antonio Muniz de. Op. cit., pág. 164; e MELLO, José Alexandre Teixeira de. Op. cit., págs. 54 a
56.
26 LIMA, Tania Andrade e SILVA, Regina Coeli Pinheiro da. Op. cit., págs. 32 a 35.
(...) veados e capivaras (...) uma fertilidade27. Mas será preciso novamente aguardar a
palavra abalizada do capitão Couto Reis, no seu famoso relatório de 1785, se
quisermos contar com a primeira descrição da mastofauna regional. Compensando
seu desconhecimento acerca de animais com um surpreendente senso de observação,
o cartógrafo deixa-nos páginas primorosas que captam o frescor das origens.
Valendo-se de classificação por ele mesmo engendradas, Couto Reis distribui os
mamíferos em três categorias, conforme a dimensão dos seus corpos. Entre os
quadrúpedes de maior grandeza inclui a anta, animal um pouco menor que um
muar, vivendo rotineiramente na água, com dieta vegetariana e de carne saborosa.
São consideradas como onças as pintadas, os tigres e as pardas. Embora menos ferozes
que as primeiras, anota o militar que, tanto as pintadas quanto as pardas, são capazes
de matar, com uma só bofetada, o mais bravio touro. Por transposição do
conhecimento do mundo euroafrasiático, Couto Reis deve ter denominado de tigre
algum felino americano com atributos semelhantes ao tigre do velho mundo. Do
tamanduá-guaçu, diz que se trata de animal peculiar por sua forma e hábitos. Com
grande cauda de grossas e extensas sedas, sustenta-se de formigas que captura com a
língua viscosa.
Ainda como quadrúpedes de maior grandeza, Couto Reis considera as três
espécies de porcos: uns totalmente negros, outros de queixo branco e outros ainda
muito pequenos denominados taititus. Sempre andando em varas, são ferocíssimos
quando se irritam e capazes de enfrentar onças. Fazem estragos na lavoura, mas
fornecem deliciosa carne. Havia duas espécies de veado a pastar na região: o do mato
virgem, maior e mais raro, e o de capoeira, menor e mais freqüente. A capivara,
animal anfíbio, assemelha-se a um porco grande. Nota o capitão, porém, diferenças
entre ambos os animais pelo tamanho da cabeça e pela forma dos pés. Aduz que
experimentou da sua carne e constatou seu péssimo gosto, talvez por alimentar-se de
peixes, ervas, raízes e milho, que tiram das lavouras com grande estrago. Completa
esta categoria com as lontras e com os jacarés, que entram apenas por serem um
grande quadrúpede, não por sua condição de mamífero, como todos os outros
apontados.
O segundo grupo é constituído pelos quadrúpedes de mediana grandeza. Sob
este título, Couto Reis agrupa o cachorro do mato, semelhante ao cão doméstico,
porém mais baixo e atarracado, com pelagem entre o pardo escuro e o cinzento,
alimentando-se de carne. Os monos e bugios, espécies de macaco, motivam
observações de ordem anatômica e etológica do cartógrafo, fazendo-o suspeitar do
27 DESCRIÇÃO que faz o capitão Miguel Aires Maldonado..., pág. 357.
17
parentesco destes animais com o ser humano. Fala do seu hábito arborícola, de sua
destreza em se locomover nos altos estratos das florestas. “... o modo de passarem os
rios – comenta ele –, castigarem os filhos, esconderem-se dos tiros de espingarda: a
cautela com que furtam, atam, e carregam os milhos, que tiram das lavouras, e outras
maravilhas que praticam enchem a nossa alma de admiração. O seu natural instinto,
excede com muita superioridade a de todos os demais irracionais; assim também nas
partes e organização dos seus corpos, que têm uma forma análoga com a do homem.”
Com toda esta admiração, não deixa de anotar que a carne destes animais é
saborosíssima. Menciona ainda a paca, cuja carne é de longe a melhor de todas, os
bracaiás, que, como as onças, alimentam-se de aves e pequenos animais. Como
quadrúpedes de menor grandeza, considera o quati, que costuma andar em bando e
tem uma carne capaz de competir com a da paca. O tatu, que cava túneis na terra e se
sustenta de formigas e outros insetos, conta igualmente com carne apreciada. A cutia
assemelha-se à paca em quase tudo, sendo sua carne, todavia, menos agradável. O
gambá, também chamado vulgarmente de raposa, tem dieta onívora. Por último, o
guaxinguerez (caxinguelê) é um pequeno animal de cauda muito peluda que trepa
nas mais altas árvores28.
Embora o interesse de Maximiliano de Wied-Neuwied estivesse mais voltado
para as aves, a ele não passaram despercebidos os mamíferos, que mereceram um dos
quatro volumes dos Beiträge zur Naturgeschichte von Brasilien, além de figurarem em
várias estampas do seu Abbildungen zur Naturgerschichte Brasilien’s. Entretanto,
poucas alusões são feitas a esta classe de animais em Viagem ao Brasil, no trecho
compreendido entre os Rios Macaé e Itabapoana. Apenas refere-se aos macacos,
porcos, veados e cutias como alimento dos índios puris, sem fornecer maiores
detalhes. Menciona o macaco barbado (Mycetes, Illiger) e o tatu-peba (do qual
informa existirem várias espécies no Brasil). Nas matas que circundavam o Rio
Itabapoana é que atenta mais para os mamíferos. Lá, ouve os berros do macaco
roncador (Mycetes ursinus, Alouatta fusca, o bugio ruivo, segundo nota de Olivério
Pinto) e a voz forte e rouquenha do sauí-açu (Callithrix personatus, Callicebus
personatus, consoante nota de Olivério Pinto, que esclarece ter sido Wied o primeiro a
registrá-lo vivo, em seu ambiente, já que fora descrito por Geoffroy em 1812). Hoje,
tal espécie extinguiu-se regionalmente. De ambas as espécies, os caçadores da
excursão abateram vários exemplares. Ao atravessar o Itabapoana, já no Espírito
Santo, descobriu rastros de antas (Tapirus americanus, hoje Tapirus terrestris). Mas a
grande novidade ocorreu quando Freyreiss e Sellow, que acompanhavam
28 COUTO REIS, Manoel Martins do. Op. cit., págs. 34 a 37.
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Maximiliano, viram um bando de lontras no Rio Itabapoana. “Num passeio rio acima,
os Srs. Freyreiss e Sellow se divertiram com o espetáculo de um bando de lontras
(Lutra brasiliensis), caçando na água, adiante deles, sem o menor sinal de alarma.”
Informados de que havia um exemplar morto de dimensões colossais, intacto, sem
vestígios de causa mortis, o grupo incorporou-o à coleção do príncipe. Pelas
características apontadas, Olivério Pinto afirma tratar-se da ariranha, que atualmente
também não mais se encontra na região29.
Curiosamente, os mamíferos silvestres não figuram nas páginas
correspondentes ao norte-noroeste fluminense dos escritos deixados por Saint-Hilaire
e Hermann Burmeister. Por sua vez, o naturalista amador Antonio Muniz de Souza
registra, na sua incursão ao Rio Muriaé, a anta, a onça, os veados, o cochino (porcodo-
mato), os macacos de diferentes espécies, a paca, a capivara, a cotia e outros, como
animais de caça, tendo anotado também, para a Lagoa de Cima, o veado, a cotia, a
capivara e a anta30. Os memorialistas regionais contentam-se tão somente em
relacionar alguns animais, sem maiores preocupações em descrever sua anatomia,
seus hábitos e seus ambientes. José Carneiro da Silva, Pizarro e Araujo, Fernando José
Martins e Teixeira de Mello rotineiramente referem-se aos mamíferos como caça,
nomeando a anta, a onça pintada, os veados (galheiro e campineiro), o quati, os
porcos do mato (cateto e queixada), a capivara, o preá, o gambá, o ouriço cacheiro, o
bracaiá (espécie de gato-do-mato), a cotia, a preguiça, o tamanduá, a lontra, o
cachorro-do-mato, a paca, o tatu e os macacos (barbado, mono, sagui, caxinguelê)31.
Evidentemente, a mastofauna silvestre da região não se esgota nas espécies
mencionadas pelos autores acima. Sucede, porém, que não contamos ainda com um
levantamento não apenas de mamíferos mas de toda a fauna, recorrendo tanto aos
documentos humanos quanto aos documentos remanescentes da natureza nãohumana.
Inventário desta magnitude se impõe com urgência, sob pena de
extinguirem-se mais espécies da fauna regional sem ao menos se saber que
exemplares delas habitaram seus domínios.
Mais grave que arrancar o animal vivo ou morto da sua casa é arrancar a casa
dele, deixando-o ao desabrigo. A caça, a pesca e o cativeiro, ou bem ou mal, ainda são
processos seletivos. A destruição de ecossistemas marinhos ou continentais, aquáticos
ou terrestres, provoca diáspora ou genocídio. Procede-se ao desmantelamento de
ecossistemas com fins extrativistas (derrubada de florestas) ou com o objetivo de
29 WIED-NEUWIED, Maximiliano de. Op. cit., págs. 84 a 129.
30 SOUZA, Antonio Muniz de. Op. cit., págs. 136 e 164.
31 SILVA, José Carneiro da. Op. cit.; PIZARRO E ARAUJO, José de Souza Azevedo. Op. cit., pág. 100;
MARTINS, Fernando José. História do Descobrimento e Povoação da Cidade de S. João da Barra e dos
Campos dos Goitacases, Antiga Capitania da Paraíba do Sul. Rio de Janeiro: Tipografia de Quirino &
irmão, 1868; e MELLO, José Alexandre Teixeira de. Op. cit., 54.
19
instalar no local ocupado por eles alguma atividade econômica, como é o caso do
complexo industrial-portuário do Açu. O dessecamento de uma lagoa acarreta a
morte em massa dos organismos aquáticos, com a possibilidade de fuga para os
organismos anfíbios no sentido lato, desde que haja refúgio. A supressão de uma
floresta com o emprego do fogo costuma provocar a morte de muitos animais. Com o
emprego do machado e de meios mecânicos mais modernos, como veículos
motorizados e motosserra, há a possibilidade de fuga dos animais para outros lugares.
Seja como for, o dano é sempre desastroso. Sem seu ambiente nativo, o animal começa
a freqüentar ambientes transformados e até mesmo antrópicos em busca de alimento
e de abrigo. Assim, de agredido, passam-no a considerar agressor. Couto Reis
impressiona-se com a capacidade das onças de matar o mais bravo touro e saltar com
ele preso aos dentes cercas de doze palmos de altura. Pode-se inferir que a introdução
de animais domesticados no Brasil passou a oferecer alimentos antes conseguidos com
dificuldade pelos carnívoros ou que, carentes de presas nas florestas pela destruição
das mesmas, passaram eles a freqüentar pastos e currais em busca de meios para
sobreviver. O seu fim costumava ser invariavelmente a morte por arma de fogo ou a
captura por armadilhas. O mesmo autor adverte que o cachorro do mato já era
escasso em fins do século XVIII. Acrescenta ainda que as lavouras costumavam ser
atacadas por porcos do mato, capivaras, macacos e aves32. Tal comportamento
decorre, em grande parte, da destruição do habitat desses animais e era considerado
incompatível com a racionalidade da economia que se implantou em terras
americanas. Daí as ações preventivas ou punitivas contra eles, transformados em pele,
carne e ossos, ou então aprisionados para a criação ou para a comercialização. Além
da barreira indígena e da barreira da saúva, há de se ter presente a barreira animal,
via de regra violentamente removida.
A destruição de ecossistemas é a maior ameaça à fauna nativa. Norma Crud
denunciou que os moluscos Cochlorina navicula, Auris bilabiata melanostoma,
Streptaxis contusus, Megalobulimus ovatus e Solaropsis sp. correm sérios riscos em
virtude da destruição de seus habitats. O primeiro só ocorre na vegetação psamófila
costeira de São João da Barra e da praia de Morobá, no Espírito Santo, não avançando
para o sul. O segundo e o terceiro, além de não contarem com populações
abundantes, limitam-se ao trecho de restinga entre São João da Barra e Macaé. O
quarto foi observado por três vezes, em diferentes horas do dia, caminhando no solo
humoso das restingas de Macaé. Finalmente, o quinto só foi encontrado uma vez, na
vegetação arbórea da restinga de Carapebus, que tinha sofrido a ação de uma
32 COUTO REIS, Manoel Martins do Couto. Op. cit., págs. 34 a 46.
20
queimada. Segundo ela, a borboleta da praia (Parides ascanius), espécie endêmica,
relicta e primitiva, localizada em Cabiúnas, encontrava-se sob pressão de atividades
antrópicas e está ameaçada de extinção33.
Para a fauna aquática, a destruição física, química e biológica é igualmente
danosa. À drenagem total ou parcial de ecossistemas lagunares, à invasão dos leitos de
lagoas por diques, à eutrofização, ao assoreamento e à poluição podem ser imputadas
a maior responsabilidade pelo empobrecimento da diversidade faunística nativa. Com
respeito ao Rio Itabapoana, o Estudo de Impacto Ambiental efetuado pela empresa de
consultoria Engevix aponta 18 espécies nativas de peixes obtidas por captura e por
informações de pescadores, o que configura um quadro bem pobre em relação à
ictiofauna existente na bacia antes do desmatamento intenso perpetrado nas margens
dos rios, da erosão, do assoreamento e da poluição oriunda de diversas fontes34. Na
bacia do Rio Paraíba do Sul, a situação é ainda mais grave, pois as margens dos seus
rios foram avassaladas por intensa atividade agropecuária, por agressiva
industrialização e por descomunal processo de urbanização. As conseqüências sobre a
fauna aquática fizeram-se sentir aos poucos. A poluição física e química é o principal
fator de degradação da qualidade das águas, associada às barragens, às sangrias e ao
assoreamento, como bem demonstra Lísia Vanacôr Barroso. Num levantamento
preliminar, constatou-se que as populações de robalo, de peixe-rei, de curimatã, de
piaba, de cachimbau, de cascudo, de camarão sapateiro, de camarão de unha e de
lagosta de água doce estão declinando e ameaçando as referidas espécies de extinção
local. A população de piabanha, por exemplo, tornou-se vestigial, a ponto de
considerar-se a espécie como virtualmente extinta na bacia. No tocante às lagoas que
restaram e ao que restou das lagoas, após as agressões cometidas pelo poder público e
por particulares, não se conta ainda com um estudo detalhado sobre a fauna aquática.
Estimava-se, em 1988, que 400 pescadores profissionais atuavam na Lagoa Feia e que
as espécies mais capturadas para comercialização eram a corvina, a tainha, o robalo,
o piau, o bagre, o acará, a traíra, o curimatã e o jundiá. Na Lagoa de Cima, 170
pescadores profissionais viviam do sairu, do acará, da traíra, do piau, do curimatã, do
cachimbau e do acari. Na Lagoa do Campelo, 120 pescadores profissionais
acotovelam-se com 100 amadoristas para extrair de suas águas a traíra, o acará e o
33 MACIEL, Norma Crud. A fauna da restinga do Estado do Rio de Janeiro: passado, presente e futuro.
Proposta de preservação. In: LACERDA, L. D. de; ARAUJO, D.S.D. de; CERQUEIRA, R.; e TURQC, B.
(orgs). Restingas: Origem, Estrutura, Processos. Niterói: CEUFF, 1984, págs. 285 a 304.
34 CERJ. Aproveitamento Hidrelétrico do Rio Itabapoana-Usina Hidrelétrica de Rosal-Relatório de
Impacto Ambiental. Rio de Janeiro: Companhia de Eletricidade do Rio de Janeiro, outubro de 1992.
21
xingó, além da exótica tilápia35. Pescadores antigos, entretanto, asseguram que a
pesca sofreu drástica diminuição em volume e diversidade.
O caso dos ecossistemas de restinga de Quissamã parece deixar claro que a
demolição dos ecossistemas nativos, aquáticos e terrestres concorreu de maneira
excruciante para o empobrecimento da diversidade faunística antes da criação do
Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba. Nesse município, não se passou, como nos
solos da planície fluvial e dos tabuleiros, um inclemente rolo compressor. Restaram
lagunas, lagoas e amostras de matas que transformaram Quissamã numa espécie de
relíquia ecológica da baixada, fazendo contraponto com os remanescentes florestais
dos píncaros da Serra do Mar. Nos ambientes nativos, transformados e mesmo
antrópicos de Quissamã, um estudo de 1994 revela uma diversidade faunística
espantosa, não mais encontrada em outros pontos do norte-noroeste fluminense, até
prova em contrário. Os pesquisadores envolvidos no estudo inventariaram, em seis
dias de trabalho, mediante entrevistas e observações de campo, 20 espécies de
mamíferos: gambá, cuíca, tatu rabo mole, tatu testa de ferro, tatu galinha, tamanduá
mirim, tamanduá bandeira, preá cutia, paca, capivara, ouriço cacheiro, tapeti, mão
pelada, quati, lontra, furão, raposa, jaguarundi, rato d’água e gato feral. Surpreende a
presença do tamanduá bandeira, visualizado pelos pesquisadores. Considerado
extinto regionalmente há muito tempo, ele é mencionado como possivelmente
existente no Vale do Itabapoana, se bem que os autores do relatório de impacto
ambiental referente à hidrelétrica de Rosal jamais tenham visto um exemplar do
animal em suas investigações esporádicas. Acreditam eles que, juntamente com o lobo
guará, com o gato do mato e com o veado catingueiro, o tamanduá bandeira refugiase
em locais recônditos da Serra do Caparaó.
Em termos de ornitofauna, a diversidade é bem maior. A pesquisa direta e
indireta revelou a presença de 141 espécies, a saber, codorna, inhambu chororó,
mergulhão, atobá, biguá, alcatraz, maguari, garça branca, garça branca pequena,
socozinho, socoí vermelho, socoí amarelo, garça vaqueira, jaburu, joão grande,
cabeça seca, caneleira, asa branca, irerê, queixo branco, pé vermelho, marreca
argentina, marrecão da Patagônia, pato do mato, urubu, urubu de cabeça amarela,
urubu de cabeça vermelha, gavião peneira, gavião carijó, gavião caboclo, gavião
caramujeiro, acauã, carcará, carrapateiro, falcão de coleira, gavião quiri quiri,
35 BARROSO, Lísia Vanacôr. Diagnóstico Ambiental para a Pesca de Águas Interiores no Estado do Rio
de Janeiro. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis,
1989; WEKID, Rosa Maria Cordeiro. Levantamento da Pesca no Rio Paraíba do Sul na Região Norte
Fluminense. Sem indicação de lugar: Superintendência do Desenvolvimento da Pesca/Coordenadoria
Regional no Estado do Rio de Janeiro, 1984; e CASTELLO BRANCO, Rosa Maria Cordeiro Wekid.
Diagnóstico Preliminar dos Recursos Naturais de Água Doce e Estuarinos e Algumas Considerações.
Sem indicação de lugar: Superintendência do Desenvolvimento da Pesca/Coordenadoria Regional no
Estado do Rio de Janeiro, 1988.
22
jacupemba, carão, saracuna sanã, saracura matraca, saracura rajada, três potes, sana
carijó, saracura mirim, frango d’água azul, frango d’água, jaçanã, quero-quero,
batuiruçu de axila preta, batuíra de coleira, vira pedra, maçarico solitário, maçarico
de pernas amarelas, maçarico grande de perna amarela, maçarico, maçaricão,
narceja, gaivotão, pomba, pomba galega, asa branca, rolinha asa de canela, rolinha,
juriti, chauá, alma de gato, anu, anu branco, saci, coruja buraqueira, mãe da lua,
bacurau, curiango, bacurau tesoura, andorinhão de coleira, andorinhão, beija flor
tesoura, beija flor de garganta verde, martim pescador, martim pescador verde, picapau
anão, pica-pau do campo, joão velho, birro, joão-de-barro, casaca de couro,
curutié, bate-bico, noivinha, lavadeira, viuvinha, suiriri vaqueiro, tesourinha, suiriri,
neinei, bem-te-vi-pequeno, bem-te-vi, bico chato amarelado, relógio, teque-teque,
barulhento, guaracava, risadinha, miudinho, andorinha de sobre branco, andorinha
do campo, andorinha de casa grande, andorinha de casa pequena, andorinha de
bando, sabiá da praia, sabiá do campo, japacanim, cambaxirra, sabiá larajeira,
caminheiro, juruviara, vite-vite, maria preta, garibaldi, carretão, polícia inglesa,
mariquita, cebinho, saí azul, saí de pé vermelho, saíra amarela, vi-vi, sanhaçu, sangue
de boi, canário sapê, tiziu, coleirinho, baiano, canário da terra, tipiu, cigarra do
bambu, galinho da serra, tico-tico, canário do campo e pardal.
Essas espécies, de diversas ordens, distribuem-se em lagoas litorâneas de água
salobra, lagoas interioranas, vegetação de restinga, matas e áreas campestres ou de
culturas. Várias são aves migratórias, que buscam pouso naqueles ambientes da
ecorregião. O pardal é indiscutivelmente exótico e prosperou com incrível rapidez e
sucesso em várias regiões do Brasil. Não causa estranheza o pequeno número de aves
canoras, face à sistemática perseguição que sofreram para cumprirem o melancólico
papel de animadores musicais domésticos.
A ictiofauna também está significativamente representada nos ecossistemas
aquáticos marinhos e continentais de Quissamã, com 51 espécies identificadas: duas
espécies de sardinha, sardinha cascuda, savelha, manjuba de duas espécies, traíra,
jeju, piau, sairu, peixe cachorro ou bocarra, quatro espécies de lambari, três espécies
de piava, bagre urutu, mandi, bagre amarelo, cumbaca, cascudo, tamboatá, duas
espécies de sarapó, quatro espécies de barrigudinho, peixe-rei ou escrivão, muçum,
duas espécies de acará, joaninha, tainha, parati, duas espécies de corvina, carapeba,
duas espécies de carapicu, maria da toca, peixe-flor, duas espécies de robalo,
linguado, sola e baiacu espinho36.
36 COLETIVO INTERDISCIPLINAR DE CONSULTORES LTDA. Zoneamento Agroecológico da Restinga:
Contribuição ao Plano Diretor de Ocupação - Estudos do Meio Biótico. Quissamã: Prefeitura Municipal,
1994; e CERJ, Op. cit., pág. 34.
23
Infelizmente, não contamos ainda com um levantamento da fauna que tem nos
remanescentes de floresta estacional semidecidual e ombrófila o seu habitat.
Carecemos também de um inventário da fauna aquática. A julgar pelos relatos de
Couto Reis e de Maximiliano, principalmente, podemos concluir, com boa margem de
segurança, que houve um empobrecimento alarmante da biodiversidade faunística na
região norte-noroeste fluminense, com a extinção regional de várias espécies.
Abatida, aprisionada, envenenada pelo uso agropecuário de insumos químicos,
privada de sua moradia quer pela poluição quer pela supressão de ecossistemas,
sofrendo a competição de espécies exóticas introduzidas pela colonização européia, a
fauna aquática e terrestre desapareceu da ecorregião ou refugiou-se em condições
desfavoráveis nos poucos fragmentos de ecossistemas nativos poupados pela
implantação das atividades extrativistas, agropecuárias e industriais, bem como de
cidades. A este processo impiedoso de pauperização, em termos qualitativos e
quantitativos, resistiram algumas espécies que acabaram por merecer a comenda de
ameaçadas de extinção, como o macaco barbado, o mono carvoeiro, a suçuarana, a
jaguatirica, o gato do mato, o maracajá, o lobo guará e o veado campeiro (se
confirmada a suspeita levantada no relatório de impacto ambiental da hidrelétrica de
Rosal), a lontra, a preguiça de coleira, o tamanduá bandeira (a ser verídica a
informação sobre sua existência em Quissamã), o chauá, o jacu (de provável
ocorrência no vale do Itabapoana), a tartaruga cabeçuda, a tartaruga verde e a
Lepidochelys olivacea37, o cágado de hogei, a surucucu pico de jaca, o jacaré de papo
amarelo e a borboleta da praia, pelo menos.
Há também um trabalho de pesquisa com cetáceos na praia sanjoanense de
Atafona (Projeto Cetáceos/FBCN) que conseguiu identificar, entre 1989 e 1996, as
seguintes espécies da ordem dos Cetáceos, capturadas acidentalmente por pescadores:
toninha (Pontopora blainvillei), tucuxi ou boto cinza (Sotalia fluviatilis), golfinho
nariz de garrafa (Tursiops truncatus), golfinho de dentes rugosos (Steno bredanensis)
e golfinho pintado (Stenella cf frontalis) As pesquisadoras do Projeto Anapaula di
Beneditto e Renata Ramos também avistaram ou encontraram encalhadas nas praias
da região a baleia jubarte (Megaptera novaeangliae), a baleia franca austral
(Eubalaena australis) e a orca (Orcinus orca)38.
37 Cf. PROJETO TAMAR. Relatório das Atividades do Projeto Tartaruga Marinha no Litoral Norte-
Fluminense - Campanha 94/95 - Base Bacia de Campos - Núcleo Atafona. Sem indicação de lugar:
Centro Tamar/Ibama, 1995.
38 PROJETO CETÁCEOS/FBCN. Plano de Conservação e Manejo de Pequenos Cetáceos no Norte do Rio
de Janeiro e seu Envolvimento em Operações de Pesca - Base de Pesquisa de Atafona. Rio de Janeiro:
Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza, 1996.
O provável impacto do complexo logístico industrial-portuário do Açu sobre a fauna
nativa
Os comentários tecidos aqui tomam por base o Estudo de Impacto Ambiental da
Infraestrutura do Distrito Industrial de São João da Barra39, por entender que seja
mais completo que os relacionados a empreendimentos isolados que vão integrá-lo. O
Distrito Industrial é parte do Complexo Logístico Industrial do Porto do Açu (CLIPA) e
deverá abrigar um porto construído no mar com pedras retiradas do Morro do Itaoca,
dois canais submarinos de acesso ao CLIPA, três emissários submarinos, um
mineroduto, um estaleiro, três pátios logísticos, duas usinas termelétricas (uma a
carvão mineral e outra a gás natural), duas siderúrgicas, unidades industriais metalmecânicas,
indústria de construção civil, pré-moldados e estruturas metálicas,
indústrias de cerâmica, de beneficiamento de rochas ornamentais e de revestimentos,
indústria de utilidades industriais (gases industriais, água, vapor e afins), indústria
automotiva e cimenteiras. Duas adutoras fornecerão água captada no Rio Paraíba do
Sul para o complexo, retirando dele, no seu trecho final, 10m3/s. O acesso por terra a
ele será feito por um grande corredor logístico.
Manoel Martins do Couto Reis, no fim do século XVIII, Maximiliano de Wied-
Neuwied, em 1815, Hermann Burmeister e J. J. Tschudi, ambos em meados do século
XIX, conheceram os ecossistemas aquáticos continentais e os vegetais nativos muito
mais íntegros do que seu estado atualmente. A diversidade faunística, no tempo de
cada um, era muito maior que nos dias que correm. Para eles, o levantamento de
animais nativos constituiu tarefa bem mais fácil que atualmente. Porém, ressalte-se
que todos eles passaram mais tempo em cada local do que os pesquisadores de hoje.
Couto Reis permaneceu na região norte-noroeste fluminense por dois anos. Os demais,
apenas algumas semanas. Os pesquisadores atuais efetuam poucas expedições para
visualização e coleta de animais, pois têm pressa em atender as empresas que os
contratam.
De todas as áreas da região, a parte menos conhecida pelos naturalistas
europeus é a seção meridional da restinga de Paraíba do Sul (entre a margem direita
do rio de mesmo nome e o Cabo de São Tomé). Tal lacuna se deve às vias costeiras de
acesso. Quem partia do sul ou do norte, ao chegar na altura do que hoje é o núcleo
urbano do Farol de São Tomé, rumava para o interior por uma estrada de terra até
Campos. Esta via seguiu o curso do Córrego do Cula e já era percorrida no século
39 LLX, ECOLOGUS E AGRAR. Estudo de Impacto Ambiental da Infraestrutura do Distrito Industrial de
São João da Barra. Maio, 211.
25
XVII. No século XIX, a Estrada de Ferro São Sebastião acompanhou seu traçado. No
século XX, ela foi transformada na rodovia RJ-216 (Campos-Farol).
Quem, por outro lado, vinha do norte passava em Campos, seguia esse mesmo
caminho e rumava para o sul. Nos dois casos, não se passava no segmento meridional
da restinga. Só Manoel Martins do Couto Reis a percorreu, mas ele era cartógrafo, e
não zoólogo, especialização que ainda não existia.
As informações colhidas pelas firmas de consultoria que formularam o Estudo
de Impacto Ambiental relativo ao Distrito Industrial do Açu são bastante incompletas e
se baseiam, em grande medida, em estudos formulados por outros autores.
Ecossistemas aquáticos continentais (limnossistemas)
As principais espécies identificadas na Lagoa do Taí foram Hoplerythrinus
unitaeniatus (Marobá), Hoplosternum litoralle (tamboatá), Rhamdia quelen (jundiá),
Geophagus brasiliensis (acará), Cyphocharax gilbert (sairu), Parauchinopterux
striatulus (cumbaca), Hoplias malabaricus (traíra), Astyanax bimaculatus (lambari) e
Loricariichthys sp (caximbau viola).
Na Lagoa de Gruçaí, destacam Oligosarcus hepsetus (bocarra), Geophagus
brasiliensis (acará), Achirus lineatus (linguado listrado), Eucinostomus melenopterus
(carapicu), Geniens genidens (bagre), Elops saurus (ubarana), Mugil curema (parati),
Centropomus parallelus (robalo), Hoplias malabaricus (traíra), Mugil lisa (tainha),
Astyanax bimaculatus (lambari), Cyphocharax gilbert (sairu), Hoplosternum litoralle
(tamboatá), Rhamdia quelen (jundiá) e Parauchinopterux striatulus (cumbaca).
Para a Lagoa de Iquipari, as espécies registradas são Pomatomus saltator
(enxova), Oligosarcus hepsetus (bocarra), Diapterus olisthostomus (carapeba),
Awaous tajasica (peixe flor), Syacium micrurum (linguado), Hoplias malabaricus
(traíra) e Cyphocharax gilbert (sairu).
A Lagoa do Veiga foi a que menos espécies apresentou. Foram identificadas o
Geophagus brasiliensis (acará), Astyanax fasciatus (tetra selvagem, peixe de aquário),
Oligosarcus hepsetus (bocarra) e Hyphebrycon bifasciatus (tetra amarelo, também
peixe de aquário).
Na Lagoa Salgada, foram encontrados Xenomelaniris brasiliensis (peixe rei),
Centropomus parallelus (robalo), Geophagus brasiliensis (acará), Hoplias malabaricus
(traíra), Astyanax bimaculatus (lambari), Hoplosternum litoralle (tamboatá) e
Xenomelaniris brasiliensis (peixe rei).
Perturbações ambientais nos ecossistemas aquáticos continentais
Na fase de implantação do Complexo Logístico Industrial-Portuário do Açu,
será impossível evitar as perturbações aos ecossistemas aquáticos continentais pela
movimentação de veículos e por ruídos diversos. Na Audiência Pública relativa ao EIA
do porto, a Comissão Estadual de Controle Ambiental (CECA) aprovou a deposição de
areia do fundo do mar para a abertura do canal de acesso às instalações portuárias em
outro ponto do mar. O mesmo foi aprovado quanto ao canal de acesso ao estaleiro. No
entanto, grande parte dessa areia está sendo usada para elevar o terreno onde será
erguido o distrito industrial de São João da Barra, que será construído pela Companhia
de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (CODIN), mas operado
pela LLX, uma das empresas do grupo EBX.
Coletas recentes de água na Lagoa de Iquipari efetuadas pela Universidade
Estadual Norte Fluminense mostram que os teores de salinidade de suas águas
aumentam à medida que se afasta do mar. Há fortes indícios de que a água salgada
que vem junto com a areia esteja correndo para as cabeceiras da Lagoa de Iquipari,
que, outrora, foi um dos braços do delta do Paraíba do Sul.
Quando o complexo entrar em operação, o movimento de pessoas e veículos e
os ruídos deverão se agravar, perturbando permanentemente as lagoas no entorno do
distrito industrial. Espera-se também que as fundações dos prédios do Complexo
Logístico Industrial do Porto do Açu (CLIPA), assim como o canal Campos-Açu, que o
Instituto Estadual do Ambiente (INEA) pretende construir para drenagem, entre o
Canal do Quitingute e o canal do estaleiro, interfiram na circulação das águas subsuperficiais
da restinga. As figuras abaixo mostram a circulação das águas
subterrâneas apenas com o CLIPA e com o canal.
A Lagoa do Veiga sofrerá um profundo impacto com a instalação do estaleiro
cuja construção previa-se, inicialmente, em Santa Catarina. Como lá ele ameaçasse
três Unidades de Conservação, o grupo EBX conseguiu licença para implantá-lo na
restinga do Açu. Para que os navios nele aportem ou dele saiam para o mar, um canal
de 300 metros de largura por 18 metros de profundidade cortará a Lagoa do Veiga em
sua parte íntegra. Este é um impacto permanente e irreversível. Havia outro caminho
para a sua abertura, mas a decisão foi mantida e licenciada pelo INEA. Pela legislação,
as lagoas são bens públicos protegidos pela Constituição da República.
Tudo indica que outro atentado profundo aos ecossistemas aquáticos
continentais será o aterro das cabeceiras da Lagoa de Iquipari para a construção do
Distrito Industrial. As firmas de consultoria costumam ilustrar os projetos com mapas
mudos, ou seja, aqueles que camuflam o contexto ambiental e social.
Ecossistemas terrestres cossistemas (epinossistemas)
As principais espécies levantadas foram, entre os insetos, Xylocopa ordinaria
(abelha da restinga), Atta robusta (saúva da restinga, não avistada) e Parides ascanius
(borboleta da praia).
Entre os anfíbios, as espécies mais encontradas foram Aparasphenodon brunoi,
Trachycephalus nigromaculatus, Dendropsophus decipiens, Hypsiboas albomarginata,
Scinax alter, Scinax similis, Leptodactylus ocellatus e Phyllodytes luteulos (perereca da
restinga, espécie que só ocorre em ambiente de restinga). O destaque do levantamento
fica por conta de Rhinella pygmaea (rã bugio ou sapo da restinga) e Scinax perpusilus
(rã bugio).
No que concerne aos répteis, assinalam-se como correntes Tropiduros
torquatus (calango), Mabuya macrorhyncha, Mabuya agilis, Hemidactylus mabouia
Planta baixa do Complexo Logístico ndustrial Portuário o Açu mostrando s cabeceiras da
Lagoa de Iquipari a serem aterradas pelo Distrito Industrial.
Fonte: RIMA da Infraestrutura do Distrito Industrial de São João da Barra. Maio, 211.
29
(lagartixa), Ameiva ameiva (lagarto verde), a serpente Waglerophis merremii
(boipeva), Oxyrhopus trigeminus (falsa coral), Boa constrictor (jibóia), Bothropoides
jararaca (jararaca) e Liophis miliaris (cobra d’água). Foram tomadas como espécies
importantes Cnemidophorus littoralis (lagartinho de rabo verde), Acanthochelys
radiolata (cágado amarelo), Caiman latirostris (jacaré de papo amarelo), Philodryas
patagoniensis (cobra corre campo), Philodryas olfersii (cobra cipó), Bothropoides
newiedi (jararaca) e Liolaemus lutzae (lagartinho branco). Sabe-se que o cientista
Alexandre Fernandes Bamberg de Araújo introduziu o lagartinho branco na restinga
de Morobá, à margem esquerda do Rio Itabapoana, para assegurar a sua proteção. É
pouco provável que a espécie ocorra na restinga de Paraíba do Sul.
A lista das espécies de aves inclui Crotophaga ani (anu preto), Mimus
saturninus (sabiá do campo), Coragyps atratus (urubu), Vanellus chilensis (queroquero),
Bubulcus íbis (garça vaqueira), Patagioenas picazuro (asa branca),
Amazonetta brasiliensis (ananaí), Pitangus sulphuratus (bem-te-vi), Ammodramus
humeralis (tico-tico do campo verdadeiro). Dentre as que merecem mais cuidados,
estão Platalea ajaja (colhereiro), Choroicocephalus cirrocephalus (gaivota de cabeça
cinza), Hymantopus melanurus (pernilongo). Cyanerpes cyaneus (saíra beija flor),
Furnarius figulus (casaca de couro da lama), Phaetornis idaliae (besourinho),
Aphantochroa cirrochloris (beija flor cinza), Anhinga anhinga (biguatinga) e Mimus
gilvus (sabiá da praia). Quanto a este último, a equipe que redigiu o Estudo de
Impacto Ambiental comenta que a espécie está ameaçada no Estado do Rio de Janeiro e
extinta na baixada dos Goytacazes. Ele não foi visualizado pela equipe. A bióloga
Norma Crud, acompanhado do autor do presente trabalho, conseguiu atrair um
macho na localidade do Açu, em fins dos anos de 1990.
Por fim, acerca dos mamíferos, foram arrolados Euryoryzomys russatus (rato
do mato),
Cerradomys subflavus (rato do mato), Coendou villosus (ouriço cacheiro),
Tamandua tetradactyla (tamanduá mirim), Dasypus novemcintus (tatu galinha),
Euphractus sexcintus (tatu peba), Noctilio leporinus (morcego-pescador), Nectomys
squamipes (rato d’água), Hidrochaeris hidrochaeris (capivara) e Artibeus lituratus
(morcego frugívoro). Atenção especial merecem Gracilinanus microtarsus (cuíca),
Pecari tajacu (cateto), Cabassous tatouay (tatu de rabo mole), Agouti paca (paca),
Bradypus torquatus (preguiça de coleira), Leopardus pardalis (jaguatirica, não
avistada, mas de ocorrência provável), Trinomys eliasi, Platyrrhinus recifinus
(morcego), Diaemus yongi (morcego provavelmente existente), Mimon crenulatum
(morcego (provavelmente existente), Phylloderma stenops (morcego provavelmente
encontrável), Artibeus cinereus (morcego provavelmente ocorrente), Chiroderma doriae (morcego provavelmente encontrável) e Desmodus rotundus (morcego
vampiro comum).
Perturbações aos ecossistemas
Na fase de instalação dos empreendimentos, será impossível evitar a produção
de movimento de pessoas e de veículos, bem como a geração de ruídos, o que muito
afugenta a fauna terrestre. As equipes que formulam Estudos de Impacto Ambiental
costumam classificar as áreas da restinga ocupadas por lavouras e pastos como muito
antropicizadas, descaracterizadas e degradadas. Cabe salientar, contudo, que as terras
transformadas por atividades rurais podem ser restauradas e revitalizadas. São,
portanto, atividades reversíveis. Não se pode dizer o mesmo de um complexo
industrial-portuário gigantesco, pois ele muda radicalmente o uso do solo, não
permitindo a reversão.
Mesmo que a vegetação nativa de restinga, em grande parte, tenha sido
substituída por uma pequena atividade agropastoril, restaram, na área do CLIPA,
fragmentos de ecossistemas vegetais nativos que abrigam espécies faunísticas
silvestres. A remoção de tais fragmentos, mesmo que acompanhada de captura de
animais em fuga a fim de transferi-los para outro local, digamos, para a Fazenda
Caroara, onde será criada uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN),
jamais alcança êxito total. Ocorrem muitas fugas e mortes. Colocados em outros
locais, os indivíduos capturados encontram a resistência de outros animais na
competição por espaço e alimentos. A construção de um novo equilíbrio é sempre
demorada e acompanhada de perdas significativas.
Na fase de operação, certos vetores de perturbação se agravam. Por exemplo, a
movimentação de pessoas e de veículos e o aumento de ruídos em quantidade e
intensidade. O próprio complexo industrial-portuário representa uma mudança
profunda no ambiente, provocando a mutilação e a morte de animais que se atrevem a
nele penetrar.
Ecossistemas marinhos (talassossistemas)
Ainda acompanhando o Estudo de Impacto Ambiental da Infraestrutura do
Distrito Industrial de São João da Barra40, foram encontrados representantes da Classe
Poliqueto (do grego polys=muitos+chaeta=pêlo, espinho, cerda), incluída do Filo
Annelida. Ela é formada por vermes segmentados que representam o maior grupo do
filo. Seus integrantes costumam ser predominantemente marinhos, vivendo em
40 LLX, ECOLOGUS E AGRAR. Estudo de Impacto Ambiental da Infraestrutura do Distrito Industrial de
São João da Barra. Maio, 211.
galerias escavadas na areia ou flutuando nas proximidades da superfície ou no
interior de tubos que eles mesmos constroem. As principais espécies identificadas
pelas equipes das empresas de consultoria foram Parandalia ocularis, Magelona
capensis, Sigambra bassi, Paraprionispio pinnata, Magelona cincta e Neanthes bruaca.
Os sipúnculos constituem um filo de animais marinhos vermiformes com
corpo não segmentado. Em comprimento, não ultrapassam 10 cm. Embora pequeno, o
filo habita desde águas marinhas pouco profundas a profundidades abissais. Nenhuma
espécie foi apontada.
Os equinodermos (do grego echinos, espinho + derma, pele + ata,
caracterizado por) é um filo ao qual pertencem os conhecidos estrela do mar e ouriço
do mar. São animais exclusivamente marinhos. Nenhuma espécie foi mencionada no
EIA.
Quanto aos moluscos (do latim molluscus, mole), filo de animais invertebrados,
marinhos, de água doce ou terrestres, foram registrados Nucula peulcha, Olivella
minuta, Nucula semiornata, Plicatula gibbosa, Chama congregata e Tellina alternata.
Os crustáceos fazem parte do filo dos artrópodes (do grego arthros: articulado
e podos: pés, patas, apêndices), animais invertebrados. A palavra crustáceo vem do
latim crusta (carapaça). Nas coletas feitas no mar pelas equipes das firmas de
consultoria, foram encontrados Pinnixa rapax, Ogyrides alphaerostris, Crassinella
lunulata, Farfantepenaus brasiliensis (camarão rosa), Farfantepenaus paulensis
(camarão rosa) e Xiphopenaeus kroyeri (camarão sete-barbas).
A palavra nemertíneo deriva de nemertea (do grego Nemertes, uma das
nereides, a que não errava) também designado Nemertina, Nemertinea ou Nemertini É
um filo formado por vermes de corpo segmentado que habitam ambiente marinho. É
também conhecido por Rhynchocoela (do grego rhynchos, bico + koilos, cavidade). O
grupo está presente na costa norte fluminense. Por fim, entre os invertebrados, foram
também encontrados hemicordatos (do grego hemi, metade + chorda, corda), animais
marinhos considerados como as formas mais primitivas dos cordados. O filo é
formado por animais vermiformes que apresentam semelhanças com os cordados e
com os equinodermos.
Para formular a lista de peixes cartilaginosos, a equipe de consultoria valeu-se
bastante de estudiosos, talvez até mais do que coletas de campo. Cita Lessa et alli
(LESSA, R.P.T.; SANTANA, F.M.; RINCÓN, G. GADIZ, O.B.F. e EL-DEIR, A.C.A.
Biodiversidade de elasmobrânquios do Brasil. Brasília: MMA, 1999), que se refere a
Rhinobatus percellens (raia viola), Mustelus higmani (cação), Carcharhinus
brachyurus (cação), Rhizoprionodon lalandii (cação-frango). Olavo et alii (OLAVO,
G.; COSTA, P.A.S. e MARTINS, A.S. Prospecção de grandes peixes pelágicos na região central da ZEE brasileira entre o Rio Real-BA e o Cabo de São Tomé-RJ. MARTINS, A.S.
e OLAVO, G. (eds.). Pesca e potenciais de exploração de recursos vivos na região
central da Zona Econômica Exclusiva brasileira. Rio de Janeiro: Museu Nacional,
2005) registraram Carcharhinus longimanus (gralha branca), Prionace glauca
(tubarão azul), Sphyrna zygaena (tubarão martelo), Alopias superciliosus (cação
raposa), Isurus oxyrhincus (anequim/cação mouro), Pteroplatytrygon violacea (raia)
e Heptranchias perlo.
No que se refere aos peixes ósseos, as espécies mais destacadas são Maurolicus
stehmanni, Trichiurus lapturus (peixe-espada), Engraulis anchoita (anchoveta),
Synagrops spinosus e Bregmacerus cantori. Recorrendo novamente a Olavo (2005), a
equipe menciona Coryphaena hippurus (dourado), Gempylus serpens (espada preto),
Lepidocybium flavobrunneum (prego-liso), Tetrapturus albidus (agulhão-branco),
Thunnus alalunga (albacora branca), Thunnus albacares (albacora laje), Thunnus
atlanticus (albacorinha) e Masturus lanceolatus (peixe-lua).
As quatro espécies de quelônios que ocorrem nas costas do norte fluminense
são Chelonia mydas (tartaruga verde), Lepidochelys olivacea (tartaruga oliva), Caretta
caretta (tartaruga cabeçuda) e Eretmochelys imbricata (tartaruga de pente).
Concluindo o levantamento, os cetáceos que freqüentam o norte-fluminense
são Tursiops truncatus (golfinho nariz de garrafa), Sotalia guianensis (boto cinza),
Pontoporia brainvillei (toninha) e Steno bredanensis (golfinho de dentes rugosos).
Perturbações aos ecossistemas
Por serem abertos, os ecossistemas marinhos oferecem uma vantagem em
relação aos aquáticos continentais e aos terrestres: a fuga dos animais de
interferências perturbadoras e degradadoras. Por outro, espécies que buscam sempre
os locais de nascimento para procriar, como as tartarugas marinhas, não conseguem
escapar das atividades temporárias e permanentes. Nos dois casos, contudo, o
resultado final é o empobrecimento da biodiversidade.
Como o Complexo Logístico Industrial Portuário do Açu (CLIPA) vai funcionar
com recursos naturais não renováveis e carbono-intensivos, é de esperar impactos
ambientais reais e potenciais muito altos. Parte do minério de ferro transportado de
Minas Gerais ao porto será exportada e outra utilizada como matéria prima por duas
siderúrgicas. A energia para atender ao complexo advirá de uma termelétrica a carvão
mineral e a gás natural situadas no âmbito do próprio complexo. Além do mais, o
porto atenderá às necessidades de exploração de petróleo pela OGX, uma das
empresas do grupo EBX, na Bacia de Campos. Para tanto, serão efetuadas operações de
sísmica marinha, altamente impactantes.
A abertura de dois canais de acesso, um para o porto e outro para o estaleiro,
no fundo do mar, ambos longos, largos e profundos, não conseguirão evitar impactos
sobre a fauna marinha, por maiores que tenham sido os esforços dos empreendedores
no sentido de tranqüilizar a comunidade científica quanto a eles. Há informações de
que a areia retirada do fundo do mar traz consigo invertebrados, peixes e tartarugas
marinhas. As evidências se tornam cada vez mais eloqüentes para serem negadas. Por
outro lado, inicialmente, a areia retirada da abertura de canais seria depositada dentro
do próprio mar, o que, inegavelmente, acarreta impactos à biota de fundo. Contudo,
grande parte dela está sendo destinada ao continente, como material de aterro para
elevar o terreno em que será erigido o Distrito Industrial da CODIN, também gerando
impactos ambientais aos ecossistemas aquáticos continentais e terrestres.
Em função de fortes correntes marinhas numa costa nova, aberta e baixa entre
os Rios Macaé e Itapemirim, a dragagem dos dois canais deverá ser empreendida
periodicamente para manter os dois canais em condições de acesso a navios de grande
calado. Assim, a dragagem não é um impacto temporário, mas sim permanente,
embora em caráter periódico. Por último, não se pode negar que o tráfego de navios se
constitui num impacto permanente.
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